Você já teve a sensação de agir sem pensar e só depois perceber as consequências? Isso pode aparecer de diferentes formas: dizer algo no impulso e se arrepender, gastar mais do que deveria, usar substâncias, interromper alguém de forma abrupta ou reagir de maneira intensa em um conflito. Esses comportamentos têm algo em comum: a impulsividade.
O que é impulsividade?
A impulsividade é definida como “uma predisposição a reações rápidas e não planejadas a estímulos internos ou externos, com pouca consideração pelas consequências negativas dessas reações para o indivíduo impulsivo ou para os outros” (Chamberlain e Sahakian, 2007). Dessa forma, ela pode ser compreendida como uma dificuldade em parar, pausar, avaliar e regular o próprio comportamento antes de agir. Em termos simples, é quando a ação acontece antes da reflexão. Na prática, foi associada à desinibição comportamental, déficits de atenção e falta de planejamento. Isso não significa falta de inteligência ou de caráter, mas sim uma dificuldade em regular emoções intensas e tolerar desconfortos momentâneos. Além disso, estudos apontam para uma prevalência alta na população, indicando que cerca de 17% das pessoas sofrem com um grau de impulsividade prejudicial, sendo que a maioria afetada são homens jovens.
Em quais situações ela aparece?
Nesse contexto, a impulsividade pode estar presente em diferentes situações e quadros clínicos. É comum, por exemplo, em indivíduos emocionalmente instáveis, incluindo aqueles com transtornos psiquiátricos externalizantes como TUS (transtorno por uso de substância), transtorno de personalidade borderline ou bipolar. Além disso, está frequentemente associada a comportamentos autolesivos, incluindo tentativas de suicídio. A impulsividade também contribui para comportamentos de risco, como infrações de trânsito, condutas sexuais de alto risco, violência doméstica, jogos de azar e cleptomania. Portanto, trata-se de um construto importante que impacta diretamente diversas preocupações de saúde pública. Vale ressaltar que, mesmo pessoas sem diagnóstico formal, podem apresentar comportamentos impulsivos em momentos de maior estresse emocional.
Quais são os impactos da impulsividade?
Quando frequente, a impulsividade pode trazer consequências importantes, tais como:
- dificuldades nos relacionamentos
- conflitos interpessoais
- prejuízos profissionais
- decisões precipitadas
- sentimento de culpa e arrependimento
Com o tempo, pode gerar um ciclo difícil: a pessoa age impulsivamente, sofre as consequências, sente-se pior emocionalmente — e isso aumenta a chance de novos comportamentos impulsivos.
É possível mudar esse padrão?
Sim. E esse é um ponto fundamental. A impulsividade é um traço de personalidade e também um comportamento aprendido. Portanto, pode ser compreendida e modificada. Atualmente, o tratamento para comportamentos impulsivos combina principalmente psicoterapia cognitivo-comportamental (TCC) – padrão ou terceira geração (DBT) e, em muitos casos, uso de medicamentos, como estabilizadores de humor e antidepressivos. Nesse sentido, o objetivo é aumentar o autocontrole, aprender a gerenciar gatilhos emocionais e reduzir a tensão que leva ao comportamento compulsivo. Dessa maneira, o foco não é eliminar emoções intensas, mas aprender a não agir automaticamente a partir delas.
Um caminho a ser seguido
Aprender a lidar com a impulsividade não significa se tornar uma pessoa “fria” ou excessivamente controlada. Pelo contrário, significa desenvolver a capacidade de escolher como agir, mesmo diante de emoções intensas. Esse é um processo possível — e, muitas vezes, transformador. Na minha prática clínica, atuo com Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) para impulsividade, focando em identificar gatilhos, reestruturar pensamentos disfuncionais e desenvolver habilidades de autorregulação emocional. Além disso, tenho desenvolvido um trabalho voltado ao treinamento de habilidades baseado na Terapia Comportamental Dialética (DBT), com foco no manejo da desregulação emocional, especialmente em contextos como dependência química e dificuldades relacionais. Portanto, se você se reconhece nesse padrão ou convive com alguém que apresenta esse tipo de dificuldade, buscar orientação profissional é um passo importante.
Saiba mais em:
Chamorro J, Bernardi S, Potenza MN, Grant JE, Marsh R, Wang S, Blanco C. Impulsivity in the general population: a national study. J Psychiatr Res. 2012 Aug;46(8):994-1001. doi: 10.1016/j.jpsychires.2012.04.023. Epub 2012 May 22. PMID: 22626529; PMCID: PMC3564492.
Chamberlain SR, Sahakian BJ. A neuropsiquiatria da impulsividade. Current Opinion in Psychiatry. 2007;20(3):255–61. doi: 10.1097/YCO.0b013e3280ba4989. [ DOI ] [ PubMed ] [ Google Scholar ]
